Tenchi Nº 1


Tenchi Nº 1

Faz agora 31 anos que saiu o primeiro número da revista Tenchi. Um dos artigos, do mestre Georges Stobbaerts, tratava da vontade e da sua importância na prática do Aikido. A vontade de que fala o mestre é a de impor a si mesmo uma obrigação: a da assiduidade ao treino.
Mais tarde ouvi o mestre responder a um dos alunos que lhe perguntou se a melhor altura para praticar Zazen, é quando se está animado de um grande desejo de praticar. O mestre respondeu: «Não! A melhor altura é quando não apetece nada praticar e temos mil desculpas para o não fazer».

Todos nós temos imensas coisas para fazer, família, trabalho, e outras actividades. Como nem tudo o que fazemos nos dá um imenso prazer em cada momento, vamos muitas vezes, quando temos pouco tempo, restringindo a nossa actividade ao essencial: a família e o trabalho.

Por um lado, a prática do aikido, como de muitas outras coisas, não é essencial à vida; podemos deixar de praticar que a vida flui na mesma. Por outro lado exige uma grande disciplina. A prática irregular, ou com interrupções não permite grande progresso.

Disciplina significa que se deve praticar mesmo quando não nos apetece, quando não sentimos grande prazer em sair de casa e ir ao dojo. Fazer o que dá prazer é relativamente fácil. Como dizia Kierkegaard agir por prazer é agir de acordo com o que somos, agir por dever é agir de acordo com o que queremos ser.

 


Um dos meus alunos mais velhos há tempos dirigiu-se a mim. Percebi que me queria dizer alguma coisa mas que não se sentia à vontade. Começa por dizer que já há algum tempo me queria falar de uma coisa que o andava a perturbar mas não sabia se tinha coragem para abordar o assunto. Depois de alguma insistência minha para falar lá abriu o seu coração.

Ele, que é provavelmente o meu aluno mais assíduo ao longo de 30 anos de aikido, disse-me: «às vezes dou comigo a pensar que não me apetece vir praticar aikido». Disse isto com um evidente peso na consciência. Eu respondi-lhe: «estás melhor do que eu, porque a mim raras vezes me apetece». Ficou feliz por perceber que não era a única pessoa a praticar por disciplina, nem sempre movido pelo prazer.

Poder-se-á dizer que haverá sempre um prazer, um prazer não imediato, resultado de um exercício de muitos anos, e que a disciplina não é simplesmente fruto do cumprimento de um dever inerente a um caminho que se escolheu, que o prazer se realiza por intrincados labirintos do desejo. Muito provavelmente é isso, mas sem a teimosia de continuar a trabalhar, mesmo quando não nos apetece, não há sucesso em qualquer projecto e não se acede nunca a esse prazer segundo, não imediato.

Se olharmos para as grandes obras da humanidade temos de admitir que as maiores não foram acompanhadas seguramente de grande prazer imediato, muitas delas devem ter sido mesmo realizadas com muito sofrimento. Não imagino Miguel Ângelo deitado horas e horas, nos dias de maior calor, durante anos e anos, junto ao tecto da Capela Sistina, com a tinta a cair-lhe na cara e tendo um prazer imenso em cada momento.


19 de Outubro de 2013
Manuel Galrinho

 

link para o artigo: http://deaikai.com/artigos/tenchi_1.html
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